"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de
alguém, provavelmente a minha própria vida."(Clarice Lispector)


quinta-feira, 31 de março de 2011

Como derradeiro e oculto estrondo, o tempo apresenta-se de forma grotesca. Limita o ser incompleto de si mesmo. Deforma o instante abruptamente. Enche de lágrimas hipócritas o não-material humano, a alma. Silencia o encargo. Massacra o pensamento dominante que seguimos com interesse ou paixão. Magnetiza como um corpo pesado, suspenso de um ponto fixo que oscila livremente, o objetivo do livre-arbítrio. E tolhe a euforia contínua de ações. O tempo limita-se a: perspicaz, talentoso, costurador de puro egoísmo intenso. Ele torce, amassa, faz debulhar-nos em lágrimas que buscam libertação ao interesse próprio, sacode a vida. E, dissimulando aceitação de nossa triste imprecação, acaricia acalmando-nos ao intenso sono noturno, profundo. Deixando-nos em paz, no inconsciente. Provando, então, seu objetivo de única hipnotização.
Marcela B.

quarta-feira, 2 de março de 2011

"Então, num lento e calculado espaço de tempo, deixei meu pescoço escorregar no ambiente e planejei um vago encontro que duraria meros segundos ou até milésimos contando que, para saber o que sentiria com o acaso, precisaria de certa sorte dentro de algumas probabilidades. Minha face ia se movendo num fleche calmo que desfazia, para as laterais, o contorno correto da minha imagem de perfil. Aproximei cada vez mais do meu momento de risco, ameacei o retorno a posição perfeita inicial, mas continuei a mover levemente ao encontro. E lá, em eternos milésimos dourados, houve a colisão do intrincado olhar."

Marcela B.