"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de
alguém, provavelmente a minha própria vida."(Clarice Lispector)


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Bom dia, sol!

Hoje acordei bem cedo. É segunda-feira e o sol ainda nem apareceu, são seis horas da manhã, e o papai disse que estamos no horário de verão. Eu não entendi por que o sol não veio me dar bom dia hoje, só que perguntei para mamãe e ela disse:
- Ele ainda virá dar bom dia a você!
Então, fiquei esperando até às nove horas e... Começou a chover! Uau! Gosto de dias com chuva, mas será que as nuvens estão chorando? Acho que não! Saio para o jardim e piso em todas as poças, estou cheia de lama, é tão divertido!
Tem um monte de borboletinhas voando e elas estão felizes, eu também. Saio correndo, com os braços abertos, e não vejo a pedra no chão. Oh, não! Levei um tombo, acho que vou chorar!
A mamãe veio correndo e deu um beijo no meu joelhinho dodói e pronto: já sarou. Mas eu não paro de chorar, aí ela faz um carinho na minha cabeça e me dá gelatina de morango.
Acho delícia gelatina. Vou à pia, da cozinha mesmo, mamãe deixa, e lavo as minhas duas mãos vermelhas com a qual eu me segurei no chão. “Está ardendo! Está ardendo!” Ameaço chorar aí meu irmão dá uma risadinha e eu rio também, assim, toda dor vai embora.
Ele está comendo gelatina e a gente está vendo quem come mais rápido. Nossa! Ele deixou cair tudo na barriga e está rindo sem parar dizendo:
- Papei pimeiro! Haha!
Tadinho! Ele nem sabe falar direito, fala tudo errado. Já disse que é pri-mei-ro, e ele não entende!
Depois, a gente levanta e corre para tomar banho. “Quem chegar por último é mulher do sapo!” E eu saio bem na frente e chego rápido. Meu irmão é muito gordinho, não consegue correr direito.
Nós demoramos uma hora no banho. Mamãe falou que uma hora é igual a “muito tempo”. Jogamos água para o alto, brincamos com patinhos e usamos xampu de peixinho que não arde o olho. É verdade, não arde mesmo! Mas eu fico brava, porque descobri que o João Pedro tem mirinha e eu não tenho. Ah, deixa! Ele ainda usa fralda e eu já faço xixi no vaso, é um bebê! Hihi!
E agora é hora do almoço e do sítio do pica-pau-amarelo. Oba! Vó Lúcia trouxe nossa comida na sala e hoje tem minha comida preferida. Arroz e franguinhos. Hum! Que delícia! A gente come tudo e é hora de irmos para escolinha.
-Mas, mãe, como Jão vai sozinho para escola? – Começo a chorar, pois, e se o meu irmão ficar machucado, quem vai cuidar dele? Pronto Gegê, nossa babá, vai com ele.
Chegando lá, levo-o na salinha e, como sou grande, pego todos os amiguinhos dele no colo. Eles adoram! Falo para Gegê ficar de olho.
Agora é recreio, e cadê Gegê? Não! Começo a chorar, outra vez, e a tia me deixa ficar com João Pedro para parar de chorar. Eu protejo meu irmão! Fico lá até ir embora e a tia diz que vai contar para mamãe que eu não posso chorar. Elas são bobas e não sabem cuidar de criança. E se alguém bater nele? Não! Eu vou ficar aqui todo dia.
Hora de irmos embora e brincar. Chegamos a nossa casa e tomamos outro banho. Que chato! Outro banho cansa. Vamos, depois, brincar de carrinho, boneca e muitas coisas legais. Brincamos até tarde. Logo a gente corre para cama da mamãe e dorme tudo lá. O papai está viajando e a cama da mamãe é mais nossa.
Marcela Beerli

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

E cobrir-lhe ainda é pouco quando o que falta está numa vasta multidão

Estava longe demais. Ou não. O perto ainda era pouco para tampar-lhe o vazio. A saudade que começava a devastar seu corpo numa compulsão imensa. Compulsão por não-sei-o-que a poucos centímetros de distância.  Mas o vácuo dá espaço a horizontes inatingíveis. E ela não sabe que quer alcançar grandiosidade. O suor, as lágrimas, as pegadas, talvez nem mesmo as sombras ou alguém. Muito além disso.
 Almejava preenchimento que a transbordasse, abrisse sonhos, recordasse-lhe as boas memórias escuras, guiasse-lhe por caminhos jamais percorridos, mostrasse-lhe o que nunca imaginaria existir. Ela desejava mãos nos olhos para ter surpresa, não necessariamente de gente que vive em sua órbita. Gostava das novidades dos dias, porém queria ainda mais que aquilo e, sem saber, foi à procura. Leu cartas e cartas, olhou todas as pessoas com tamanho cuidado – para não deixar passar seus milagres -, pisou descalça na lama, bebeu água da chuva, chorou debaixo do chuveiro e vomitou potes e copos de risos. Amou o dia todo, dormiu na posição exata - a fim de ganhar aconchego -, assegurou-se de cada segundo utilizado e queixou-se dos mal distribuídos. Aperfeiçoou-se a seus próprios olhos de coruja, porque deitou caladamente sobre a noite. Desenhou-se, conheceu-se, admirou-se sobre a pedra fria que dava permissão a esplêndida visão oblíqua: a lua espetacular, amável, inspiradora e exata para o momento noturno que lhe cobria a pele desprotegida.
 Depois de tanto cultivar, sentou-se ao meio-fio e chorou todas as lágrimas: era rica em sentimento, tinha de sobra qualquer afeto ganhado durante todos seus dias legitimados em solidão. Mas ainda queria alguma coisa, sonhava. Desejava resposta e as teve como no âmago: o que lhe falta é o amor entre as gentes. É sorriso derramado sobre as ruas cheias de manhã de sábado, beijo de mãe na testa do filho que dorme, é demonstração de amor sem medo de faltar retribuição – pois essa viria com sinceridade na voz ou no abraço longínquo -, sonho pelos jardins correndo entre as borboletas coloridas, é aceitação de o próprio ser dentro de cada um, história mal contada para gerar satisfação, estrela tendo seu valor estampado, reverência ao céu que esconde seus mistérios, pessoa que se gosta e não se esquece de amar de verdade, pois nada no amor deveria estar subentendido. Haveria de habitar as portas, lareiras, estantes. Viajar por todo o mundo e unir todas as pessoas. Aí sim, seria absurdamente completa e jamais pensaria na vastidão.
Marcela Beerli

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A MAIS PURA HISTÓRIA DO AMOR


Eu amei desde a primeira vez que reparei nos meus pés. Como eu amava aqueles pés gordinhos, pequenos, como se eu já não estivesse acostumada a vê-los todos os dias com desprezo. Mas eu descobri algo muito interessante, os meus dez dedinhos mexiam de várias maneiras diferentes. Como era incrível ver aquela escadinha de dedos, um menor que os outros, todos os dias.
Até que, em uma manhã qualquer, amei o sol, o brilho que entrava em meus olhos e os faziam doer, a quentura do meu corpo escorrendo suor, como era lindo o sol. As paredes, os detalhes de tudo que eu via. Amei o sol e comecei a amar o calor.
O calor era tão quente, muito quente. E quando eu brincava de pique, saia assim, toda suada. Com muito calor. Eu chegava a minha casa com os meus pezinhos, os quais eu amava, sujos como a lama. E escutava a mamãe dizendo “Já para o banho”. A água.
Como aquela água me refrescava e me deixava limpinha para poder brincar de novo. Assim, amei a água e a limpeza. Podia me sujar toda outra vez. E chegava suada para ouvir mamãe dizendo, dessa vez com a vovó ao lado, sempre tão orgulhosa da neta que mal se dava por amar a vida, com um sorriso que vinha de cada ponta da orelha, “Que cheirinho de passarinho molhado”. E eu, toda contente, ia correndo abraçar a vovó com aquela cara de menina moleque, e ela nem ligava para eu estar daquele jeito sujo.
Como eu amava as pessoas. Elas me fazem sorrir. Eu amo as pessoas. Todas têm ideias tão divertidas. Minhas amigas sempre trazem novas brincadeiras. O papai sempre gosta de comer doces comigo, gosto muito de comer doces com o papai! Com meus irmãos, brinco. Nós brigamos às vezes, mas é só de mentirinha, porque logo voltamos a nos divertir juntos.
E eu também amo a palavra mentira. Se a mentira não existisse, a verdade não existiria. A história do Pinóquio não seria inventada, e não teria nada de nariz crescendo. Tem mentira que é boa. Como as minhas brigas, são de mentirinha boa. Mas a mentira ruim, eu não gosto não.
Também me amo, assim posso amar a tudo e a todos e eu amo o amor, porque é uma das palavras que o dicionário erra na definição. O amor é doce como um brigadeiro e eu amo brigadeiro. Assim surgiu o amor, como um arco-íris que nasce no céu, alegra a todos que dele desfruta.
- Marcela Beerli


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A VIDA É UMA MERDA

- Minha vida é uma merda! – exclamava Claudinha varrendo a sala – Bosta de marido que eu fui arrumar, vagabundo que só ele, só quer saber de dormir e comer, trabalhar que é bom nada... Ô vida de merda!
Isso era diariamente falado mais de uma vez por Claudinha. Era empregada doméstica, muito bem tratada, que ganhava o suficiente, pouco, mas o suficiente. Criara seus filhos mostrando-lhes a desgraça:
- Acostumem-se, crianças. Se marido não tiverem que os irritem, bons motivos a vida dará para se irritarem.
Os filhos cresceram em meio ao tumulto: pai cansado, mãe reclamando, por sorte não saira um drogado da família.
- Minha vida é uma merda! – Claudinha mal se dava conta do inferno que seus dias estavam se transformando.
- Muda a frase, mulher. Você faz da sua vida uma merda de tanto reclamar. – Avisavam os vizinhos.
A mulher foi levada à igreja, se não tivesse amigos tão pouco a escutariam e pelo visto nem pastor uma pessimista suportava:
- Saaaaaaai, demônio!
Não seria essa a melhor solução. Claudinha voltava para casa inconformada, rezava para tudo quanto é santo para ver se resolvia sua vida e concluiu que o problema era o marido. Pobre homem, estava de férias e tentava há dias explicar isso à mulher que já tirara suas conclusões precipitadas, “Vagabundo tem que ser mandado embora mesmo.”
Mas, Paulo, o marido, ainda tinha esperanças no meio daquela “merda” de vida tão boa segundo ele.
- Vamos receber visita – Paulo não suportava estar só com a mulher e com as crianças já contaminadas com a ignorância da mãe.
- Que droga!  Só me dá trabalho esse homem. – disse Claudinha emburrada.
A visita entrou. Uma senhora elegante e seu filho. Era patroa de Paulo e insistira em fazer-lhe uma visita para levar o menino para brincar. As crianças se juntaram; a senhora se sentara no simples sofá da saleta com tão bom ar de confortável e acolhida. Claudinha estava inquieta, detestava gente folgada.
Foi atrás das crianças importuna-las e deu de cara com o pequeno visitante tão pálido, bonito, com olhos grandes e azulados os quais se arregalaram com o susto ao vê-la:
- Menino ridículo! – Ela nem media as palavras. – Sua mãe quis fazer um aeroporto de mosquitos ao raspar sua cabeça? Gente rica é tudo igual. Povo fútil!
Logo foi respondida com a mais doce e meiga voz do contrário a inveja, a voz de criança mais encantadora:
- Não, senhora. A mamãe disse que sou lindo de qualquer jeito, mesmo sem meu cabelo, foi o que ela disse quando o doutor Fabiano explicou que meu cabelo iria querer fugir. Fugiram aos pouquinhos, até que mamãe o cortou. Estou pouco doente, mas logo vou melhorar. Fiquei sabendo, por meu amigo Josep, que o que tenho é sério, mas a mamãe me mostrou o quanto é importante agradecer, mesmo sem motivo, apenas por estar vivo. Josep não agüentou, morreu ontem, mamãe disse que em um pedacinho do meu coração ele sempre vai estar guardado. E ele está bem no lugar dele.
- Pique-pega, pique-pega!
- Folhinha de abacate ninguém me rebate! Tchau moça – sorriu a criança que acabara de mudar o mundo de uma mulher que acabara de engolir a seco a inveja da boa vida alheia. A merda de vida acabou.
 Marcela Beerli