"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de
alguém, provavelmente a minha própria vida."(Clarice Lispector)


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

E cobrir-lhe ainda é pouco quando o que falta está numa vasta multidão

Estava longe demais. Ou não. O perto ainda era pouco para tampar-lhe o vazio. A saudade que começava a devastar seu corpo numa compulsão imensa. Compulsão por não-sei-o-que a poucos centímetros de distância.  Mas o vácuo dá espaço a horizontes inatingíveis. E ela não sabe que quer alcançar grandiosidade. O suor, as lágrimas, as pegadas, talvez nem mesmo as sombras ou alguém. Muito além disso.
 Almejava preenchimento que a transbordasse, abrisse sonhos, recordasse-lhe as boas memórias escuras, guiasse-lhe por caminhos jamais percorridos, mostrasse-lhe o que nunca imaginaria existir. Ela desejava mãos nos olhos para ter surpresa, não necessariamente de gente que vive em sua órbita. Gostava das novidades dos dias, porém queria ainda mais que aquilo e, sem saber, foi à procura. Leu cartas e cartas, olhou todas as pessoas com tamanho cuidado – para não deixar passar seus milagres -, pisou descalça na lama, bebeu água da chuva, chorou debaixo do chuveiro e vomitou potes e copos de risos. Amou o dia todo, dormiu na posição exata - a fim de ganhar aconchego -, assegurou-se de cada segundo utilizado e queixou-se dos mal distribuídos. Aperfeiçoou-se a seus próprios olhos de coruja, porque deitou caladamente sobre a noite. Desenhou-se, conheceu-se, admirou-se sobre a pedra fria que dava permissão a esplêndida visão oblíqua: a lua espetacular, amável, inspiradora e exata para o momento noturno que lhe cobria a pele desprotegida.
 Depois de tanto cultivar, sentou-se ao meio-fio e chorou todas as lágrimas: era rica em sentimento, tinha de sobra qualquer afeto ganhado durante todos seus dias legitimados em solidão. Mas ainda queria alguma coisa, sonhava. Desejava resposta e as teve como no âmago: o que lhe falta é o amor entre as gentes. É sorriso derramado sobre as ruas cheias de manhã de sábado, beijo de mãe na testa do filho que dorme, é demonstração de amor sem medo de faltar retribuição – pois essa viria com sinceridade na voz ou no abraço longínquo -, sonho pelos jardins correndo entre as borboletas coloridas, é aceitação de o próprio ser dentro de cada um, história mal contada para gerar satisfação, estrela tendo seu valor estampado, reverência ao céu que esconde seus mistérios, pessoa que se gosta e não se esquece de amar de verdade, pois nada no amor deveria estar subentendido. Haveria de habitar as portas, lareiras, estantes. Viajar por todo o mundo e unir todas as pessoas. Aí sim, seria absurdamente completa e jamais pensaria na vastidão.
Marcela Beerli

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