"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de
alguém, provavelmente a minha própria vida."(Clarice Lispector)


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A VIDA É UMA MERDA

- Minha vida é uma merda! – exclamava Claudinha varrendo a sala – Bosta de marido que eu fui arrumar, vagabundo que só ele, só quer saber de dormir e comer, trabalhar que é bom nada... Ô vida de merda!
Isso era diariamente falado mais de uma vez por Claudinha. Era empregada doméstica, muito bem tratada, que ganhava o suficiente, pouco, mas o suficiente. Criara seus filhos mostrando-lhes a desgraça:
- Acostumem-se, crianças. Se marido não tiverem que os irritem, bons motivos a vida dará para se irritarem.
Os filhos cresceram em meio ao tumulto: pai cansado, mãe reclamando, por sorte não saira um drogado da família.
- Minha vida é uma merda! – Claudinha mal se dava conta do inferno que seus dias estavam se transformando.
- Muda a frase, mulher. Você faz da sua vida uma merda de tanto reclamar. – Avisavam os vizinhos.
A mulher foi levada à igreja, se não tivesse amigos tão pouco a escutariam e pelo visto nem pastor uma pessimista suportava:
- Saaaaaaai, demônio!
Não seria essa a melhor solução. Claudinha voltava para casa inconformada, rezava para tudo quanto é santo para ver se resolvia sua vida e concluiu que o problema era o marido. Pobre homem, estava de férias e tentava há dias explicar isso à mulher que já tirara suas conclusões precipitadas, “Vagabundo tem que ser mandado embora mesmo.”
Mas, Paulo, o marido, ainda tinha esperanças no meio daquela “merda” de vida tão boa segundo ele.
- Vamos receber visita – Paulo não suportava estar só com a mulher e com as crianças já contaminadas com a ignorância da mãe.
- Que droga!  Só me dá trabalho esse homem. – disse Claudinha emburrada.
A visita entrou. Uma senhora elegante e seu filho. Era patroa de Paulo e insistira em fazer-lhe uma visita para levar o menino para brincar. As crianças se juntaram; a senhora se sentara no simples sofá da saleta com tão bom ar de confortável e acolhida. Claudinha estava inquieta, detestava gente folgada.
Foi atrás das crianças importuna-las e deu de cara com o pequeno visitante tão pálido, bonito, com olhos grandes e azulados os quais se arregalaram com o susto ao vê-la:
- Menino ridículo! – Ela nem media as palavras. – Sua mãe quis fazer um aeroporto de mosquitos ao raspar sua cabeça? Gente rica é tudo igual. Povo fútil!
Logo foi respondida com a mais doce e meiga voz do contrário a inveja, a voz de criança mais encantadora:
- Não, senhora. A mamãe disse que sou lindo de qualquer jeito, mesmo sem meu cabelo, foi o que ela disse quando o doutor Fabiano explicou que meu cabelo iria querer fugir. Fugiram aos pouquinhos, até que mamãe o cortou. Estou pouco doente, mas logo vou melhorar. Fiquei sabendo, por meu amigo Josep, que o que tenho é sério, mas a mamãe me mostrou o quanto é importante agradecer, mesmo sem motivo, apenas por estar vivo. Josep não agüentou, morreu ontem, mamãe disse que em um pedacinho do meu coração ele sempre vai estar guardado. E ele está bem no lugar dele.
- Pique-pega, pique-pega!
- Folhinha de abacate ninguém me rebate! Tchau moça – sorriu a criança que acabara de mudar o mundo de uma mulher que acabara de engolir a seco a inveja da boa vida alheia. A merda de vida acabou.
 Marcela Beerli



2 comentários:

  1. Mais uma vez vc me surpirende com o que escreve.
    Quero agradecer por publicar seus textos, agora vou ter sempre algo de interessante pra ler.
    Diniz

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